Switch, parte 3: jogos!

Já publiquei aqui no blog as primeiras impressões de uso do Switch e os pequenos problemas que o novo console da Nintendo tem. Agora falta o quê? Jogos, claro. Se você acompanha os podcasts da PlayRoom, já ouviu algumas impressões rápidas no último Let’s Play, mas ainda precisamos passar por outros títulos e acrescentar um pouquinho mais de profundidade na coisa toda.

Lista de exclusão

Antes de mais nada, é bom explicar alguns critérios de escolha pessoais na hora de adquirir jogos – até para demonstrar como o meu perfil de usuário do Switch pode ser muito diferente do seu, leitor:

  • Mal terminei The Legend of the Zelda: Breath of the Wild no Wii U, então não vou sair correndo para comprar de novo no Switch. Porém, entenda que se você não jogou, deve ser a sua primeira compra, sem discussão. E não, não importa se você não é lá muito fã de Zelda; esse jogo é outra história, e ainda por cima vai render mais de 100 horas em um console com poucos lançamentos AAA físicos.
  • Eventualmente vou pegar Mario Kart 8 Deluxe sim, só pelos personagens extras (Splatoon!), mas não a R$ 250+. Só quando cair a menos de R$ 200, nem que seja digital.
  • Por mais que eu queira testar a leitura de movimentos dos joycons, 1-2 Switch não vai rolar enquanto não cair para US$ 20, talvez menos. Como a Nintendo costuma demorar uns 3 anos para relançar jogos em categoria “Select”, e mesmo assim a US$ 30, podem esperar sentados.
  • Não tenho carinho especial por Bomberman e mesmo que a recepção de Super Bomberman R tivesse sido melhor, a US$ 50 não vai rolar. Talvez, quem sabe, quiçá, se cair abaixo de US$ 20, o que deve acontecer muito antes do 1-2 Switch.
  • Achei The Binding of Isaac ótimo, mas pagar US$ 40 em uma versão física só por DLCs que adicionam itens e personagens é um pouco demais para um jogo originalmente de US$ 10. No campo de jogos indies importantes relançados com conteúdo extra no Switch, há opções melhores e mais baratas (ver abaixo).
  • Não, Just Dance 2017 não. Entendo que é divertido, mas se for para ficar na frente da TV dançando, vou de Dance Central mesmo, que pelo menos ensina passos de verdade.
  • Muito menos Skylanders Imaginators. Se não comprei nenhum desses jogos de colecionar bonequinhos em console nenhum, nem mesmo Disney Infinity com personagens da Marvel, não vai ser Skylanders agora só por causa do Switch.

Pronto. Agora, ao que efetivamente passou pelo crivo pessoal…

Um cartucho solitário em meio a trocentos bits

Se você prestou atenção em tudo que escrevi e falei sobre o Switch, já entendeu que o console está aqui em casa como um novo portátil, ideal para indies, que pode ser rapidamente ligado à TV e com o enorme bônus de ter aqueles jogos que só a Nintendo faz (mesmo que espaçados). Em resumo, é uma espécie “Super Vita Ultra Pro EX” da Nintendo. E essa abordagem informa os títulos que comprei – quase todos em versão digital, com uma honrosa exceção por enquanto.

Wonder Boy: The Dragon’s Trap

Recém-lançado remake do Wonder Boy III de Master System, aquele mesmo que virou Turma da Mônica no Brasil. Como se trata de um update visual e sonoro que permite retornar ao jogo original com o aperto de um botão, ainda retém algumas “velhices” na jogabilidade, além de “macetinhos” em um chefe ou outro. Mesmo assim, surpreende pelas ideias avançadas de design para a época.

Ter uma vila como hub central, encontrar transformações em animais que abrem acesso a novas áreas, comprar armas e armaduras que aumentam seu ataque e defesa, rejogar áreas para acumular dinheiro e itens… Tudo demonstra que Wonder Boy foi a maior inspiração para a série Shantae, algo que nem imaginava.

O remake me ocupou por cerca de 7 horas, sem chegar a encontrar/comprar todos os itens disponíveis. Também é possível jogar com uma versão feminina do protagonista, a Wonder Girl (basta escolher na tela-título, e o nome do jogo muda de acordo), e continuar explorando após o último chefe. Apesar das origens, não é realmente difícil, mesmo para quem não está acostumado a plataforma 2D dos velhos tempos; talvez você fique sem saber para onde ir em um momento ou outro, já que a estrutura não é de fases lineares. Nada que uma pesquisa rápida na Internet não resolva.

O visual e a trilha remasterizados estão sensacionais, de primeira linha mesmo, e o jogo custa apenas US$ 20. Não é exclusivo do Switch, mas cai muito bem no formato do console por motivos óbvios.

Shovel Knight: Treasure Trove

Taí um jogo que sempre impressiona, não importa quantas vezes você volte a ele. Uma mistura de Ducktales com fases a la Megaman e toques de RPG era 8/16 bits, além de algumas ideias pinçadas de séries mais modernas como Dark SoulsShovel Knight é o melhor jogo de plataforma indie com visual retrô que eu conheço, tranquilamente. Não à toa, foi o meu escolhido como melhor jogo de plataforma em 2014.

Jogabilidade afiadíssima, dificuldade que fica em um bom meio-termo entre os extremos de antigamente e as facilidades de hoje, humor leve e divertido, conceito central bizarro e engraçado (um cavaleiro medieval que usa uma  como arma?!), bastante conteúdo… Se você ainda não jogou, está esperando o quê? No máximo, pode ter a desculpa de esperar para jogar quando comprar um Switch, e mais nenhuma outra. Nenhuma.

O pacote Treasure Trove sai um pouco mais caro que Wonder Boy (US$ 30), mas o preço se justifica pela boa quantidade de conteúdo. Os dois DLCs inclusos, Plague of ShadowsSpectre of Torment, são campanhas novas, não apenas skins do protagonista – e vale dizer que Spectre também está disponível como standalone no Switch. Como não tinha jogado nenhum dos DLCs, peguei o pacote completo, que inclui acesso a uma futura terceira campanha extra e ao Battle Mode. Desde 2014, o jogo ainda recebeu mais opções de jogabilidade, como co-op local e suporte ao seu próprio amiibo. Ou seja: a não ser que você já tenha jogado tudo dele, é obrigatório para quem tem o Switch.

Snipperclips – Cut It Out, Together!

Um jogo de quebra-cabeças 2D que envolve personagens de papel “se cortando” no formato necessário para avançar, Snipperclips é um dos 10 jogos mais bem avaliados do Switch até o momento… Mas como se vê já no nome, foi pensado para duas pessoas, embora possa sim ser jogado solo. Há uma demo na eShop, e baixei-a para avaliar o quanto se perde no modo forever alone… E parece ser muito, sim.

O “modo solo” é apenas um novo esquema de controle para alternar entre os dois personagens, “matando” a principal graça – conversar para descobrir o que fazer – sem oferecer nada em compensação. Como cada quebra-cabeça ocupa apenas uma tela estática e não tem nenhuma dica ou objetivo explícito, fica claro o aspecto “duas cabeças pensam melhor do que uma” para avançar. Também é fácil imaginar as trapalhadas entre dois jogadores tentando explicar como posicionar e girar cada um de seus avatares para fazer o “corte” no formato necessário. Jogando sozinho, isso tudo se perde, e alguns quebra-cabeças ficam mais frustrantes.

É uma pena, porque o jogo parece muito promissor… Mas sem co-op online, fica difícil justificar até mesmo US$ 20 para quem vive sozinho. Se você tem família em casa, porém, deve ser uma ótima escolha, ainda mais com crianças.

ACA Neo Geo Metal Slug 3

Não conheço quase nada da série Metal Slug, então ter dois jogos de Neo Geo no Switch a meros US$ 8 cada é tentador demais. Acabei indo no 3 e, em termos de pura jogabilidade e visual, o preço é uma barganha: inimigos e cenários variados, tiro afiado, veículos divertidos, chefes insanos, aquele jeitão de sátira exagerada de filme de ação, tudo que se fala e se espera da série. A emulação também é ótima e inclui trocentas opções de personalização, desde tamanho da tela até filtros e efeitos visuais de arcade, ou ainda escolha de botões e “regras da casa”. Como se não bastasse, tem co-op local e inclui as versões japonesa e americana.

Parece ser uma escolha obrigatória então, certo? Quase. O jogo original tem um problema sério: foi claramente projetado para ser devorador de fichas em fliperama. É possível “adicionar fichas” à vontade com o botão L, mas esse continue infinito acaba deixando tudo meio trivial. Você pode desativar a opção de adicionar créditos, mas aí a coisa vai para o outro extremo: no nível padrão (4), a dificuldade de Metal Slug 3 é insana, injusta mesmo. Mesmo reduzindo a dificuldade, são apenas 3 vidas e muitos momentos de inimigos surgindo do nada já em cima do seu personagem; se você abrir mão do continue, prepare-se para rejogar cada fase quinhentas vezes até decorar cada inimigo, sem tirar nem pôr.

No fim das contas, acabo em uma situação meio esquisita, jogando um título de arcade tradicional apenas para ver as paisagens e as maluquices, sem me preocupar muito se levo tiro ou não. É uma sensação bizarra, e com isso acabei me dedicando mais a outros jogos no Switch. Mas se você é fã da série, pode ir sabendo que o trabalho de recuperação/emulação é sensacional.

Blaster Master Zero

Um remake do primeiro Blaster Master, originalmente de Nintendinho, Zero resgata um pseudoclone de Metroid que resolveu se diferenciar expandindo tipos de jogabilidade e aspectos de narrativa. O núcleo central é aquilo que fez a fama de Samus Aran: combata inimigos mutantes e cibernéticos enquanto explora mapas futuristas 2D para encontrar upgrades, que liberam o acesso a novas áreas. O visual segue a cara pixelada do original, mas com alguns detalhes a mais, puxando para os 16-bits – ou seja, não é um remake modernizado. A partir daí começam os diferenciais mais significativos.

Para começar, o jogo tem uma história mais recheada, com cutscenes e tudo (no formato da época, claro). Você controla um carro espacial com salto e tiro, linha Moon Patrol, que vai recebendo os upgrades principais de exploração dos mapas. Para arrematar, você pode sair do carro para acessar partes específicas dos mapas e explorar dungeons, onde a perspectiva muda para movimentação isométrica em telas estáticas sequenciais. A mudança súbita pode parecer estranha à primeira vista, mas você logo se acostuma e agradece a sua existência, já que o design das áreas principais não se compara ao de nenhum Metroid.

Sim, o nome do chefe é Mother Brain. E não é o único design chupinhado de Metroid na cara dura

O principal problema dele, curiosamente, é o oposto de Metal Slug 3: nunca vi um jogo dessa era ser tão fácil. Na verdade, não consigo pensar em nenhum jogo de qualquer era fácil assim, pelo menos por enquanto (cerca de 3 horas de jogo, indo para a 4ª área e pelo menos 5 chefes derrotados). A coisa é tão trivial que até esqueço que ele permite salvar em qualquer lugar, e acabo usando apenas os terminais de save disponíveis em cada área. Por outro lado, como o jogo é mais centrado em historinha e exploração, a facilidade extrema me incomoda menos do que usar o continue infinito de Metal Slug 3, que deveria ser um desafio mais justo de suas habilidades motoras.

No final, por apenas US$ 10 e com co-op, é uma ótima opção para quem tem Switch e não faz muita questão de desafio. Se tiver dúvidas quanto às mudanças bruscas de jogabilidade, há uma demo disponível na eShop, que me convenceu mais do que qualquer vídeo do jogo. Por fim, se você ainda vai esperar um pouco antes de pegar o Switch, ele também está disponível no 3DS – embora eu suspeite que o tamanho reduzido do carrinho e do personagem fora das dungeons seja um problema em telas menores.

Fast RMX

Uma versão expandida de Fast Racing Neo, jogo digital para Wii U inspiradíssimo em F-ZeroFast RMX inclui todas as pistas do original e seus DLCs, além de 6 pistas novas. Como não tinha jogado nada da série antes, US$ 20 por 30 pistas parecia um ótimo negócio, ainda mais na falta de Mario Kart 8 Deluxe por um tempo. E de fato, vale cada centavo – até mais, se você for fã de F-Zero ou mesmo de Wipeout.

O jogo não tem os elementos mais brincalhões/cartunescos de F-Zero, então talvez não sacie totalmente a secura dos fanáticos… Mas compensa com um visual futurista-realista lindíssimo, mantendo 60 frames em qualquer modo. Em termos de apresentação, é o jogo para mostrar as capacidades do Switch. Mas o que importa mesmo são as corridas, e quanto a isso, não se preocupe: Fast RMX tem o nível de desafio correto, exigindo algum treino e conhecimento da pista mesmo na dificuldade mais básica. Se aventurar nas maiores deve desafiar até aqueles mais habilidosos, além de estender bastante a longevidade do jogo.

Com direito a multiplayer local via Wi-Fi e online, ambos para até 8 pessoas, e modos extras como o de desafio por tempo (experimente bater o dos desenvolvedores – é um teste e tanto), Fast RMX é altamente recomendado para qualquer usuário de Switch que curta corrida um pouco que seja. Talvez o seu único problema seja a pouca diferença de condução entre um carro e outro… Ou talvez eu não seja bom o suficiente para perceber as sutilezas jogando na dificuldade básica, o que é bem provável.

I Am Setsuna

Como a vida dá voltas: esperei tanto por uma queda no preço de I Am Setsuna que ele acabou saindo no Switch, e como queria ter um RPG para jogar no aparelho, acabei pagando o tal valor cheio (US$ 40). Para quem não o conhece, trata-se de um jogo digital da Square Enix que não é oficialmente da série Chrono, mas na prática, é um resgate total de Chrono Trigger com visual mais moderno – e belíssimo, aliás. De diversas maneiras, incluindo o jeitão mais chibi dos personagens, o jogo lembra o caso de Bravely Default, que só não é Final Fantasy no nome… Com talvez um porém.

Pelo menos no início, I Am Setsuna parece aderir ainda mais à fórmula de sua inspiração. Enquanto Bravely Default introduz mecânicas como ajuste de chance de encontros aleatórios e o sistema brave/default, que permite “guardar” turnos ou “gastá-los” antecipadamente, I Am Setsuna inova comparativamente menos, apresentando a possibilidade de apertar o botão de ataque no momento certo para acrescentar efeitos extras ao resultado. Note que isso está longe de ser ruim, especialmente para o público-alvo pretendido… Mas talvez explique por que o jogo não teve a mesma recepção fervorosa da crítica, além de outros fatores que não tive a chance de conferir ainda.

Pessoalmente, não estou nem aí; a jogabilidade poderia ser idêntica à de Chrono Trigger que já seria bom. Que ele tenha alguma novidade já o eleva acima da carne seca. Considerando o interessantíssimo setup da história, o ótimo desempenho, as possibilidades do combate, a excelente trilha sonora e o belo visual, o jogo parece mesmo valer o preço mais alto. Como ainda estou muito no começo para um RPG tradicional – com 20 a 50 horas estimadas de jogo, dependendo do seu nível de dedicação – é melhor guardar opiniões definitivas para depois. Porém, vou me surpreender muito se I Am Setsuna me decepcionar após um início tão bom.

Lego City Undercover

Como eu queria muito ter pelo menos um joguinho do Switch em mídia física e vários dos outros foram “vetados” de cara (você leu o início deste artigo, né?), acabei indo de Lego City Undercover – que consegui encontrar a menos de R$ 200, não tinha terminado no Wii U e até já tinha apagado do cartão de memória para liberar espaço. Essa versão não tem conteúdo inédito, mas é um remaster de visual e interface competente, que não deve nada aos ports de PS4 e Xbox One. E se o fato de não ter terminado ele antes deixou você em dúvida, não fique: isso não aconteceu por qualquer problema do jogo, e sim por ser gigante para um jogo Lego e ter dividido as atenções na época com outros lançamentos iniciais do Wii U.

Até me preocupei do tempo não ter sido generoso com Undercover, já que muito do que ele introduziu na série Lego virou padrão: foi o primeiro título de mundo aberto e com maior liberdade de roteiro, especialmente no humor (até por não ser atrelado a nenhuma licença externa). E de fato, uma ou outra mecânica menor ou tipo de quebra-cabeças já evoluiu um pouco em jogos posteriores, como Lego Marvel Super Heroes. Mas nada disso diminui o melhor de Undercover: a sátira a jogos linha GTA e seriados policiais, que você não verá em nenhum outro título da série. Há algo de mágico em sair destruindo tudo pelo caminho e ver as coisas se desmontando em blocos de Lego – incluindo seu próprio veículo – que nem mesmo o próprio GTA proporciona.

De resto, Undercover é aquilo que já sabemos que a série Lego faz bem: ação simples, quebra-cabeças de encontrar peças e montar objetos, fases feitas para serem rejogadas em busca dos 100%, muitas roupas para desbloquear (algumas com habilidades próprias associadas) e uma leveza divertida para aqueles momentos em que você se cansa da seriedade de outros jogos mais “maduros”. As referências a filmes diversos e cultura pop não só não envelheceram, como não foram igualadas em jogos Lego posteriores presos a licenças. Ainda por cima, é mais um título com co-op local no Switch. E se você é do tipo completista, prepare-se: só de blocos dourados são 450 (!) para achar, fora os outros itens colecionáveis.

O único porém é o desempenho no modo TV, com o framerate dando umas leves engasgadas ocasionais, mas nada intolerável: cai para uns 20-25 frames nos piores momentos, não 15 ou menos como em Breath of the Wild no Wii U. Se você não teve o console anterior da Nintendo, ZeldaMario Kart 8 Deluxe são prioridades maiores, mas não ignore Undercover – talvez o melhor jogo Lego até hoje ainda, tanto que já estou mais perto do final dessa vez. E ele vai estar sempre lá quando quiser voltar só para encontrar itens extras, quase sempre atrelados a quebra-cabeças no cenário, não espalhados à toa como em muitos jogos de mundo aberto mais “sérios”. É muito retorno pelo seu dinheiro para ser ignorado.

Mr. Shifty

Já passamos por Metal SlugBlaster Master para os saudosistas retrô, Wonder Boy como exemplo sensacional de remake modernizado, Shovel Knight como indie de renome, Fast RMX para fãs de corrida, I Am Setsuna para vidrados em RPG, Lego City para ação e humor… Está faltando algo mais inovador e inédito, não? A minha aposta nesse campo foi Mr. Shifty, um jogo de US$ 15 disponível no Switch e no PC (está previsto para PS4 e Xbox One no futuro). E como fã de Hotline Miami, não poderia ser de outra forma.

Sim, você leu direito. Mr. Shifty é, basicamente, o resultado de alguém assistindo a famosa cena do Noturno na Casa Branca em X-Men 2 e tentando imaginar como aquilo poderia funcionar em um jogo… E concluindo que a melhor base era Hotline Miami. Com um visual mais cartoon, as primeiras fases são exatamente isso: ação vista de cima em que você precisa derrotar inimigos com seus punhos ou o que encontrar no cenário, só que com a habilidade de teleportes curtos. O bom é que essa habilidade extra acabou inspirando os desenvolvedores a ir além: fases posteriores incluem destruição completa de cenário, inimigos mais variados e quebra-cabeças espaciais com lasers e minas terrestres, entre outras coisas que é melhor descobrir jogando você mesmo.

Mr. Shifty não começa tão difícil quanto Hotline Miami, mas a curva acaba igualando as coisas e, nas últimas três ou quatro fases (de 18), até supera a inspiração, sem chegar a ser totalmente frustrante… Pelo menos não no design. O grande problema do jogo nesse trecho final é o desempenho no modo TV. Após a introdução de tantas explosões, itens, cenários destrutíveis e um número ainda mais alto de inimigos, o framerate afunda de vez – chegando até a congelar a imagem por um segundo e, pior ainda, fechar o jogo. Esse erro me aconteceu duas vezes, uma delas em uma das últimas áreas da última fase (grrr!). No modo portátil, as quedas de framerate parecem desaparecer, estranhamente.

Assim como em Hotline Miami, ao morrer você pode apertar um botão para reiniciar imediatamente aquele andar… Mas era no máximo 3 ou 4 andares curtos por fase, enquanto em Mr. Shifty cada uma pode ter 9 ou 10 áreas maiores, e sair do jogo por qualquer motivo significa começar a fase toda de novo. Imaginem que uma das fases finais me tomou 42 minutos e 71 mortes para terminar (!), e fica claro que, mesmo que o desempenho fosse impecável em todos os modos, nessas fases você vai precisar reservar mais tempo de jogo do que o esperado para um título menor/portátil, ou fazer uso extensivo do sleep mode para não perder progresso à toa.

Assim, não dá para recomendar Mr. Shifty a todo mundo, apesar do bom design, conceito inovador e jogabilidade redondinha… Mas se você está atrás de experiências diferentes e novas, vale demais o preço, especialmente se futuros patches consertarem o framerate. Se não consertarem, jogue no modo portátil e uma ou duas fases por vez, para evitar maiores frustrações em um jogo que, de resto, é muito bom.

Conclusões gerais

Além da tendência do Switch como console apropriado para jogos indies/menores e exclusivos da Nintendo, já bem estabelecida pelo caráter híbrido do aparelho, dois outros fatores chamam a atenção nesse “lote” inicial de jogos testados.

O primeiro é o quanto as desenvolvedoras estão levando a sério o fato do console vir com dois controles: 6 dos 9 jogos acima têm modo co-op ou multiplayer local e esquemas de controle apropriados para os joycons isolados, mesmo sem os gatilhos disponíveis. Se você tem interesse em dividir o Switch na sua casa, não deve faltar opções para se divertir com família, filhos e amigos, sem precisar adquirir um controle Pro ou par de joycons extras. Por outro lado, talvez isso se torne mais um entrave para ports de certos tipos de jogos AAA (não que a Nintendo já desse muita trela para eles antes…).

O segundo é como alguns desenvolvedores ainda estão com dificuldade para “entender” a arquitetura híbrida do Switch. Além dos problemas de Breath of the Wild pré-patches, temos os casos de Lego City Undercover e Mr. Shifty, mesmo sendo um jogo menor/indie. Note que as quedas de framerate acontecem no modo TV, sugerindo que esses jogos foram otimizados para uma resolução menor. Também é curioso que dois dos três casos sejam de mundo aberto (ZeldaLego City) e dois envolvam vários sistemas de física diferentes ao mesmo tempo (ZeldaMr. Shifty). Isso sugere que o “gargalo” está na CPU, que normalmente lida com amplitude de mapa e quantidade de coisas acontecendo na tela – e é justamente a peça que troca de velocidade de processamento de acordo com o modo no qual o Switch está sendo usado.

Pelo menos no Switch o Zelda parece ter melhorado após patches. No Wii U, porém…

Será que essa arquitetura híbrida vai limitar ainda mais os tipos de jogos que veremos no Switch? Pode ser uma questão de tempo de adaptação, como acontece em todo console novo. Mas mesmo que afete, se o “gargalo” for mesmo o que parece ser, não deve mudar muito o tom geral dos jogos ideais para o Switch: Breath of the Wild é um caso à parte entre os exclusivos da Nintendo, e indies não costumam ser tão vastos nem exagerar na física. Mesmo Mr. Shifty pode ser apenas um caso de pressa para aproveitar o lançamento do Switch, já que o jogo ainda nem tem data nas outras plataformas.

De qualquer forma, o Switch hoje, pouco mais de dois meses após o lançamento, já tem jogos suficientes para agradar quase todo tipo de jogador. Provavelmente não será o console primário da maioria, e ainda está longe de ser atraente para quem joga apenas um ou dois tipos de AAA, como o jogador médio de Call of DutyFifa. Mas como um híbrido, não faltam títulos variados e apropriados para a fácil transição entre portátil e TV que ele oferece. Agora é torcer para a Nintendo continuar atraindo indies como tem feito e garantir a média de qualidade de sempre nos jogos dela. Por enquanto, nada indica que isso deixará de acontecer.

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